Canções que cabem tão dentro de nós: elas vêm de ninguém e de todos…

J_Borges_Cantoria de viola.

Há canções que ouvimos em nossa infância, cuja letra sabemos decor ou ainda um trecho da melodia. Mesmo assim não conseguimos lembrar ao certo seu autor: elas cabem tão dentro de nós e parecem que vêm de ninguém, ou, quem sabe, de todos. Milton Nascimento e Tunai captaram a fina poesia envolvida e compuseram “Certas canções”, de 1982: “Certas canções que ouço, cabem tão dentro de mim; que perguntar carece, como não fui eu que fiz? (…)” e segue, cheia de emoção, imortalizada com o timbre inigualável de Milton. Veremos que não é à toa.

Uma delas é “Cuitelinho”, folclore recolhido por Antonio Xandó, Milton Nascimento e Paulo Vanzolini, tão doce quanto seu homenageado, o beija flor. A interpretação de Inezita Barroso é memorável e a letra singela nos faz cantarolar o dia todo, caprichando nos “ai, ai ai…”:

Cuitelinho

“Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espáia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai (…)”

                   Outra é de Minas Gerais, também um folclore recolhido por Tavinho Moura, outro músico de mão cheia. Como bem salienta José Hamilton Ribeiro, em seu “Música Caipira” (Realejo Livros, 2015), Calix Bento é inspirada na Folia de Reis, uma das formas mais antigas da musica caipira, e por isso mesmo, genuinamente popular. A Folia, assim como outros folguedos e comemorações, ainda resistem nas cidades do interior, levando fé, alegria e respeito às tradições e manifestações do povo brasileiro.

                   Mais uma vez vem nosso mineiro Milton, o Bituca, e coloca em seu repertório (disco Minas, de 1976) essa beleza: duvido que não cante junto!

Calix Bento

Oh Deus, salve o Oratório
Oh Deus, salve o Oratório
Onde Deus fez a morada, oiá, meu Deus
Onde Deus fez a morada, oiá

Onde mora o Cálix Bento
Onde mora o Cálix Bento
E a Hóstia Consagrada, oiá, meu Deus
E a Hóstia Consagrada, oiá (…)

Mas tem aquelas músicas que são mesmo de domínio público, isto é, não vêm de festas e folias, mas de lá e de cá, de rodas de viola, da tradição oral, das cantigas de roda, daquela mistura de culturas indígenas, africanas, portuguesas, espanholas e quem mais vier, formando esse caldo riquíssimo e sem igual que é a música brasileira. Vêm do norte ou do sul? Do sertão ou da praia? Precisa saber?

Não precisa: é só começar a dedilhar “Marcolino”, que a festa se esquenta! Versos novos feitos ali, na hora, pelos talentos presentes vão deixando a “moda” mais animada, e assim ela segue seu curso, para sempre ser recordada:

Marcolino

Você me chamou tropeiro 
Eu não sou tropeiro não 
sou arrieiro da tropa Marcolino 
o tropeiro é meu patrão (…)

Lembrou-se? Não? Então vamos fazer nossa parte: trazemos gravação no Youtube, abaixo, de Inezita, com Pena Branca e Xavantinho, dupla inesquecível, cantando e perpetuando Marcolino para muitas e muitas gerações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *