Para aquecer no frio, o chique cashmere: mas é de pelo de cabra e brasileiro!

A ovelha fornece lã e a cabra, leite. Certo? SQN (só que não)… Chegam notícias excelentes na pesquisa brasileira, mudando essa “lógica” que aprendemos desde a infância: pois as cabras podem fornecer um tipo de fibra, finíssima, que bate em excepcional qualidade o cashmere importado, fomentando a criação de pequenos produtores e melhorando a vida de toda cadeia produtiva.

“Senta que lá vem a história”: começa com um criador, que doa suas cabras, da raça boer, para a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, sob a alegação de terem pelos embolados, e…serem muito feias! Aí começou o trabalho de pesquisa acadêmica da zootecnista Lia Coelho (imagem da abertura, analisando as fibras em laboratório), descobrindo não propriedades inéditas das fibras dos caprinos, de alto valor econômico e social.

Mas as “cerejas do bolo” foram as peculiaridades dessas fibras. A matéria está publicada na Revista FAPESP de maio de 2019 (link abaixo, “para saber mais”), e resumiremos aqui o que foi descoberto: elas possuem uma espessura média de 10 a 12 micrômetros (1 micrômetro é a milésima parte de 1 milímetro, 1/1000 milímetros; 1 milímetro é a milésima parte de 1 metro, ou 1/1000 metro) – veja como são as fibras de cashmere (subpelo), na imagem de abertura, sendo retiradas por escovação manual.

No mercado internacional, fibras de caprinos muito novos, chamados de baby cashmere, possuem 14 micrômetros, destinadas a grifes de marcas de alto luxo. Atribui-se a especialíssima qualidade das fibras das cabras brasileiras à radiação solar intensa no país, isto é, nossa natureza tropical favorece e beneficia os animais, que não precisam ser tosquiados nos seus tenros anos para fornecer fibras rentáveis.

Nem precisa dizer da repercussão da indústria têxtil, outras universidades, laboratórios especializados, que se encantaram com esses resultados! Notícias boas não pararam por aí, não: segundo o IBGE (2017), 90% do rebanho de caprinos está na região nordeste brasileira (cerca de 8,2 milhões de cabeças), fornecendo leite e carne, gerando renda de R$ 190,00 na venda do animal vivo para abate. Seguem em anexo criação de cabras, com área de descanso, comedouro, lazer (Figura 2 e 3).

Aí entra mais uma aplicabilidade desta pesquisa: pelos cálculos da zootecnista, a coleta de fibra pode gerar um ACRÉSCIMO de R$ 247,00/ano para os criadores, especialmente pertencentes a grupos econômicos vulneráveis, como pequenas famílias que têm na caprinocultura sua única subsistência em condições de escassas oportunidades.

Das múltiplas especialidades oferecidas pela criação de cabras, com o intuito de extração e aproveitamento das fibras de cashmere, decorre que este insumo atende a vários “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável” da Organização das Nações Unidas (ONU), os chamados ODS, conhecidos como  diretrizes mundiais de sustentabilidade. Pois acredite que vai mais uma dessa fibra brasileiríssima: usa menos água no seu processamento e limpeza. Não é pouco: gera uma economia de nada menos que 98% em relação à fibra convencional, vinda da Ásia (região da Caxemira, China e Nepal), que são sujeitas à neve e à chuva.

Infelizmente notícias desse porte não figuram nas capas de jornais e mídia televisiva. Pior: figuram lá, de forma insistente, o contingenciamento brutal de alocação verbas para as universidades federais, com alegações de desvio de verbas etc., generalizando para culpar “todos”, dando brecha para não culpar “ninguém”. Mas quem sofre as consequências é a pesquisa brasileira, essa, que trazemos aqui e MUITAS, milhares de outras. Como se diz na linguagem popular, ”joga-se a água suja do banho da bacia do bebê com o bebê junto”.

A quem realmente interessa a paralisação de nosso patrimônio, que é a pesquisa brasileira, construída a tantas e tantas mãos e cabeças ao longo desses anos, custando projetos de vida inteira de um sem-número de docentes e pesquisadores, colocando em risco nossa soberania nacional?  

Ironicamente ouvi de um cidadão, em um estacionamento, que o uso indevido da verba estava nas universidades cariocas, nas federais. De onde vem mesmo essa pesquisa que trata nosso texto? Do Rio de Janeiro, onde está a UFRRJ e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), envolvida no projeto. Comentários deste tipo é uma das consequências, nefasta, da desinformação e generalização habilmente orquestradas.  

Mas, voltemos à alegria, esperança e resistência dessa pesquisadora e de seu grupo, que representa tantos outros. Só para finalizar em grande estilo e “style”, vamos a mais uma descoberta: a tosquia das cabras se dá em qualquer idade, apenas por escovação. Escovadas, melhoram seu bem-estar e produzem mais leite, sim senhor e senhora! Quem não gosta de ficar penteada: vem me chamar de feia, agora!!

Para saber mais: https://revistapesquisa.fapesp.br/2019/05/10/o-fino-pelo-das-cabras/

Endereços das imagens de abertura:

https://bit.ly/2xKkvrZ

https://bit.ly/2xKavif

Imagem 2 e 3:

. Imagens cedidas pelo Prof. Dr. José Henrique das Neves, FAEF Garças/SP.

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